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Texto de Paulo Amaral
(Diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli)
para a exposição Cartografia missioneira
no Espaço Cultural Yázigi Sonilton Alves, Porto Alegre, em 1998.
Há na iconografia missioneira um anjo de olhar sereno, o braço recolhido
junto ao corpo e o indicador apontando profeticamente para o céu. Esta
imagem, que Elizethe sonha amiúde, preside o ambiente de seu atelier
transformado em laboratório de memórias quase irresgatáveis. É possível que
sua pesquisa venha a cumprir o dever, há muito adiado por nossa impaciência
ou por nosso temor ao desafio, de mergulharmos nas brumas das reduções
jesuíticas para delas extrairmos novos mistérios. Corremos sempre o risco de
nada descobrir. É também viável que a partir deste trabalho tão rico e
intenso possa o artista reunificar, recompor ou relacionar entre si imagens
mutiladas pela insensatez da ira iconoclasta. Arremeter-se a essa empresa é
como jogar-se de cabeça ao fundo de um poço escuro em que apenas acreditamos
existir água, e implica fazê-lo com medo e coragem, com raiva e paixão, com
sonho e desesperança e com todos os sentimentos aparentemente contraditórios
de uma alma inquieta e instigadora. Elizethe é uma artista maior, possuindo,
portanto, esta alma que a seduz ao mergulho. No ambiente em que recebe,
vamos passando um a um os seus trabalhos, desenhados, pintados e - por que
não? - esculpidos sobre os mais diversos suportes como papel, ferro, tela,
tijolos... Percebo-me diante de uma obra que dispensa a crítica, porque,
antes, arrebata o espectador com gritos de sentimentos de verdade. Pergunto
a Elizethe se ela teria se demandado, no instante mais íntimo da criação,
aquele em que o homem e obra compõe um ser único, pergunto-lhes se em algum
instante assim ela teria dito a sí mesma "a arte me basta". Ela me revela o
alto preço pago a cada vez em que se propõe a desenhar limites entre dúvida
e certeza, extremos não tão patentes em sua obra fundamentada pela pesquisa,
onde tantas vezes o acerto é a consequencia prática do erro. No sonho de
Elizethe inexistem relações lineares de pensamento, tudo está por acontecer.
Encanta-me sua belíssima obra de unidade, acabada, madura... Correndo os
olhos por seu atelier luminoso, impregnado de incenso oriental e de música
de Rachmaninoff, onde pontificam o anjo de dedo para cima, o Menino Deus
Indígena, a Virgem Maria e o Senhor Crucificado, descubro imagens douradas
do barroco, fragmentos de cartas, de memórias e dores plasmados a partir de
técnicas diversas que a artista domina com maestria de quem deve ouvir-se
confessando a sí mesmo "sim, a arte me basta". |
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Cartografia missioneira

Cartografia missioneira

Cartografia missioneira

Cartografia missioneira
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